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Geral  

Reorganizar os movimentos de trabalhadores para enfrentar a nova direita e as reformas de Temer

15/09/2016

Ato contra o governo Temer, realizado em junho, na praia de Copacabana, Rio de Janeiro
Foto: Fernando França

Da Redação do Sindsprev/RJ
*Por André Pelliccione

Muito tem se falado, mas pouco tem se refletido em profundidade, sobre o chamado ‘ressurgimento’ da direita no país, fenômeno ocorrido sobretudo a partir das eleições presidenciais de 2014, quando o então  candidato tucano Aécio Neves(PSDB) perdeu para Dilma Rousseff(PT) por pequena margem de votos.

Da derrota de Aécio à conclusão do impeachment de Dilma, em agosto deste ano, assistimos estarrecidos a um amplo processo de reorganização e mobilização de forças conservadoras e retrógradas, forças que ganharam ainda mais ‘organicidade’ por meio de movimentos ultra-neoliberais como MBL (Movimento Brasil Livre) e Revoltados Online, entre outros, que souberam se aproveitar da frustração dessa base social reacionária após  a derrota de seu candidato (Aécio).

Discurso pró-mercado e ódio às esquerdas

Associados a entidades patronais como Fiesp, além de bancos (sistema financeiro), mídia e agronegócio, tais movimentos estiveram desde o início à frente das principais mobilizações pelo impeachment da ex-presidente Dilma, destilando um discurso pró-mercado cuja característica principal é o ódio a todas as esquerdas e a tudo o que signifique a implementação de políticas sociais ou econômicas marcadas por maior intervenção estatal. Mesmo que tais políticas sejam apenas ‘cosméticas’ e não representem, sob qualquer ponto de vista, uma ameaça à reprodução do capitalismo no Brasil, como é o caso de programas como Bolsa-Família e Minha Casa-Minha Vida, entre vários outros implementados nos 13 anos de governos do PT.

Para isso, o trabalho desses movimentos de ultradireita foi substancialmente facilitado pelo aprofundamento da crise econômica no segundo mandato de Dilma, com a disparada do desemprego, além dos sucessivos escândalos de corrupção envolvendo personalidades do governo do PT investigadas e condenadas por conta da Operação Lava-Jato. Embora a atuação do MBL e do Revoltados Online não nos permita falar em um caráter ‘espontâneo’ das manifestações pelo impeachment e também levante suspeitas sobre as fontes de financiamento desses movimentos, o fato é que o aprofundamento da crise econômica, combinado à crise política e institucional, foi o elemento propulsor decisivo para que a extrema-direita retomasse as ruas em todo o país, fenômeno que não acontecia no Brasil desde a véspera do golpe de 1964, quando o então presidente João Goulart (PTB) foi derrubado pelos militares com apoio da Marcha da Família com Deus pela Liberdade.
 
Nova classe média referenciada no mercado

Classificados como ‘coxinhas’ pelos defensores do governo Dilma — classificação esta (coxinhas) que nada nos diz sobre a realidade concreta e, muito menos, nos permite compreendê-la em profundidade —, os milhões de pessoas que foram às ruas entre março de 2015 e maio de 2016 para pedir o impeachment de Dilma e a derrocada do PT possuem uma característica marcante: são, em sua maioria, de classe média, mas uma classe média distinta daquela tradicionalmente existente no Brasil. Ao contrário da classe média dos anos 60 e 70, então referenciada no emprego público e na busca de ‘estabilidade’ entre as profissões liberais, a classe média atual é mais parametrizada por valores de mercado como empreendedorismo, individualismo, hedonismo, meritocracia, eficiência de gestão e privatizações. Em suma, menos Estado e mais iniciativa privada. Menos Marx e mais Von Misses e Adam Smith. Em alguns casos, embora minoritários, essa classe média tem manifestado elementos de uma ideologia tipicamente protofascista, como a obsessão por ‘ordem’, ‘disciplina’ e ‘hierarquia’, além do culto histérico aos símbolos nacionais, materializado em frases que remetem à linguagem dos piores momentos da guerra fria, em expressões como: ‘a nossa bandeira jamais será vermelha’ ou ‘fora comunistas vermelhos’.

No Brasil atual, essa classe média significa algo em torno de 40 milhões de pessoas (o tamanho da população argentina) com grande poder de compra (consumo), sobretudo no setor de serviços, formando a base social fundamental e necessária para a defesa e a sustentação do capitalismo no país. Atualmente, esta base social ainda não encontrou, no atual quadro partidário, uma representação política apropriada para suas propostas, pulverizando suas candidaturas em inúmeros partidos de direita. No entanto, nada nos garante que não venha a fazê-lo, criando um futuro partido com grande força eleitoral e capaz de ser o 'fiel da balança' em termos políticos.

Os limites do PT na implementação do ajuste

Mas o que, além do desgaste provocado pelos sucessivos escândalos de corrupção e o aprofundamento da crise econômica, explicaria a queda do governo do PT? Por que isto aconteceu, se em 13 anos de poder o PT implementou as principais linhas macroeconômicas das políticas neoliberais? Por que o PT caiu, uma vez que, em seus governos, os bancos (nacionais e estrangeiros) e o agronegócio nunca ganharam tanto dinheiro? Por quê?

A resposta é que, apesar de implementarem as linhas gerais da política neoliberal e atacarem os direitos dos trabalhadores com grande ferocidade — como mostram a reforma da previdência de 2003, o Projeto de Lei 257 e a PEC 241 —, os governos do PT sempre tiveram limites estruturais para aprofundar tais ataques, limites que estão em suas próprias bases sociais, o que historicamente tende a não ocorrer com um governo burguês clássico, ou seja, um governo ‘orgânico’ da classe dominante.

Diante do crescente desgaste do PT no poder e de suas reais limitações para implementar o ajuste sobre os trabalhadores na profundidade desejada pelo grande capital, a burguesia brasileira e seus consorciados no exterior obviamente preferiram a opção Temer. Opção que também envolve riscos, obviamente, mas que de saída não possui os mesmos obstáculos enfrentados pelo PT, ou seja, os compromissos históricos assumidos pelo Partido dos Trabalhadores junto a suas bases sociais, desde a fundação, mesmo sendo o PT da atualidade uma agremiação já bastante desfigurada e degenerada, que muito pouco guarda em comum com suas origens proletárias.

Numa conjuntura como a atual, marcada pela crise de reprodutibilidade do capital e pela queda das taxas de lucro em nível global, a saída institucional burguesa é sempre o aprofundamento das formas de exploração sobre a classe trabalhadora, além da intensificação do processo de rapinagem das estruturas de Estado, com mais privatizações, cortes de direitos e de programas sociais. Daí a ‘pressa’ com que Temer (PMDB) quer emplacar as ‘reformas’ previdenciária e trabalhista, atendendo a exigências do sistema financeiro, da indústria e das grandes corporações de serviços (nacionais e estrangeiras).

Para isso o governo do PT já não servia mais, apesar de toda a subserviência demonstrada pela gestão Dilma ao grande capital, como já ficara explícito nas concessões para privatização de aeroportos e na prioridade ao pagamento da dívida pública junto aos grandes bancos (superávit primário), temas esses assumidos como verdadeiros mantras pelas administrações petistas.

A desmoralização das esquerdas no rastro da degeneração do PT

Como subproduto da queda do governo Dilma está a desmoralização das esquerdas como um todo, no plano simbólico, a partir dos casos de corrupção protagonizados por figuras do PT e generalizados pela grande mídia, além do crescimento do reacionarismo em nosso dia-a-dia, como mostram os cada vez mais frequentes casos de racismo, homofobia, agressões a mulheres e violência policial contra manifestantes que ousem questionar a implementação de políticas neoliberais de ‘estado mínimo’. Tudo apresentado pela mídia comercial como se os problemas do país fossem de responsabilidade exclusiva das administrações petistas, e não de um sistema econômico predatório e cada vez mais explorador que ainda trata as questões sociais como caso de polícia, reproduzindo a lógica da Casa Grande em suas relações com a Senzala. Tudo como se a corrupção fosse originada e exclusivamente praticada por representantes do PT, e não uma instituição nacional que existe desde os primórdios de nossa colonização.

Às forças de esquerda cabe não apenas se organizarem para responderem ao crescimento da espiral reacionária, mas retomarem as mobilizações da classe trabalhadora, de forma autônoma em relação a governos, empresas e partidos, reafirmando assim o caráter classista e independente de suas lutas.  Esse é o caminho para barrar as contrarreformas neoliberais tão desejadas por Temer e aliados como MBL, Fiesp, Congresso, bancos e latifúndio, e não a aposta (ôca) na institucionalidade, como atesta a bandeira de 'eleições gerais'.


*Este texto expressa tão somente as opiniões do autor, e não as do Sindsprev/RJ ou de sua diretoria colegiada.






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